Transmissão

DÁCIO BICUDO – TRANSMISSÃO
As mitologias do discurso religioso

“O mito é sempre um roubo de linguagem, pois é próprio do mito transformar um sentido em forma” (Barthes, 1957).

Em seu livro Mitologias, escrito nos anos 50, o pensador francês Roland Barthes define mito como uma representação coletiva que é socialmente determinada e então invertida, para que não pareça um artefato cultural.
Mais do que um objeto, um conceito, ou uma ideia, um mito é um modo de significação, uma forma que toma corpo toda vez que algo é retirado de seu contexto e sua historicidade, congelado e apresentado como algo natural, neutro. Eis que a religião, dentro dos sistemas de comunicação de massa atuais, tornou-se um potente mito, explorado de forma incansável em formas midiáticas variadas.
Nesta exposição, Dácio Bicudo escolheu como ponto de partida conceitual justamente o fenômeno da mitificação da religiosidade na mídia eletrônica. O artista, que também é diretor e produtor de filmes, apresenta inicialmente ao observador uma imagem de Jesus Cristo, aplicada diretamente sobre um fundo de chroma key, acompanhada de um microfone. De cor verde, a superfície de chroma key se refere à técnica usada na TV pra captar uma determinada imagem, que posteriormente será separada de seu fundo original, ajustada e recontextualizada, conforme a conveniência do diretor de imagem.
Essa versatilidade do chroma parece reverberar a ideia de que toda a forma de encantamento e magia, antes reservado às formas de fé, passaram a ser transferidos para os milagres instantâneos operados pela mídia e pela publicidade. De fato, a televisão e as propagandas de internet tornam-se cada vez mais o palco da visualização de nossos mitos contemporâneos.
A fabricação de imagens, com seus respectivos discursos, se transforma num repositor de desejos. Com sua força de penetração e reverberação gerada pela repetição, garantidas pela consistência e alcance delos meios de comunicação, essas imagens-discursos adquirem o peso de uma verdade.
Na exposição, imagens sacras—Cristos, anjos, budas—aparecem em pinturas, objetos e esculturas, e muitas vezes são acompanhadas de microfones e outros equipamentos de gravação televisiva.
No centro da galeria, uma instalação feita de sete “cruzes”–na verdade, quatorze tubos de luz fria, sustentados por engrenagens de filmagens–são complementadas com microfones, remetendo a um verdadeiro show midiático de fé.
Uma escultura em plástico translúcido sobrepõe camadas de silhuetas humanas, criando sombras de sobreposições. Ela contrasta com os rebatedores de luz fotográfica, onde foram pintadas imagens de um anjo e de um Buda, respectivamente.
Dois grandes objetos de parede, espécies de camafeus, feitos com relíquias de imagens religiosas e mangueiras d´água em cores cítricas, atribuem um tom lúdico à mostra.
Uma Madona com Menino Jesus, pintura em papelão, mostra Nossa Senhora carregando em seus braços um menino vestindo a camiseta de futebol. A informalidade, aqui, é quebrada pela moldura de entalhes dourados.
Três desenhos, realizados em técnica mista, mostram anjos aparecendo em meio a cenas cotidianas. Eles parecem comentar a possibilidade de um resgate do sagrado em meio a situações simples e inusitadas.
Assim como a narrativa religiosa tem penetrado os campos da mídia responsáveis pelo consumo de massa, explodindo os limites entre sagrado e profano, o artista aqui anula as zonas que separam a arte contemporânea da arte popular, utilizando os mais variados objetos de uso doméstico cotidiano.
O imaginário já foi definida por Gilles Deleuze como sendo um conjunto de trocas entre real e irreal, sem que que haja discernimento entre os dois. Em sua vontade de potência, o artista utiliza e subverte as mesmas técnicas utilizadas pela mídia ao apresentar suas imagens religiosas como formas de imaginário. Ele se assume pois como um “falsificador”, substituindo a pretensão da verdade por uma potência do falso, potência esse que se torna, no tempo de um devir, uma potência criadora. (Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. Pg.84-86)
*por Katia Canton


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